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Especiais - Entrevistas



Madonna encontra Norman Mailer
Década de 90



Madonna começa a entrevista, já disparando uma frase que dá incío à entrevista de Norman Mailer. Na época, havia muito boato sobre a vontade carnal de Madonna por mulheres, principalmente por seu envolvimento carinhoso (e público) com a (ex) amiga Sandra Bernhard.


Madonna: Às vezes realmente me sinto bissexual.
Acredito que as pessoas são. Viemos de uma mãe e de um pai. E essa mãe poderia ser mais masculina do que o pai, e as características masculinas do pai poderiam ter vindo de sua mãe ...

Norman: Correto.

Norman: Então estou mais interessado na atitude que a pessoa assume depois. Em certas pessoas, homens e mulheres, a única diferença real é que uma tem o falo e a outra tem a vagina, ainda que a estrutura de suas vidas esteja montada nos seus órgãos genitais. Para mim, a questão é saber em que medida estas estruturas são opressivas.
Madonna: Eu simplesmente acho importante você foder o que você quer foder e não se envergonhar disto.


Norman: Não, a vergonha é um guia. A menos que você não concorde. Você ri vendo filmes pornográficos?
Madonna: Eu rio. Toda vez que vejo um filme pornô, esborracho de rir. Acho-os divertidos, porque sempre tentam criar aquelas desculpas esfarrapadas para foder.

Norman: Num filme pornô, quando os atores estão enfastiados e fingindo, reconheço que é terrivelmente chato. Mas certas pessoas são muito boas nisto, embora nem sempre sejam atores, podem ficar excitados enquanto a equipe as observa e seu destino está sendo mudado. Quando uma moça é filmada num pornô, sua estrada não tem volta. Ela se torna uma profissional.
Madonna: É para sempre.

Norman: Sim, elas ficam presas àquela profissão, que não é muito agradável. Aonde vão depois? Porque as estrelas dos pornôs envelhecem muito rapidamente.
Madonna: Por quê?

Norman: Notei isto repetidas vezes. Por que não existem estrelas de pornô, cujas carreiras duram dez anos? As estrelas pornôs se desgastam. Existe algo de perigoso nisso. Algo nelas é liquidado muito cedo. Portanto, considero isso um esporte cruel. Não obstante, quando as atrizes ficam ligadas, excitam-se de fato, e a gente se surpreende com o fato de que algo real acontece, mesmo quando o diretor provavelmente está dizendo: ''Mostre-nos mais o traseiro, benzinho'' e informando ao câmera para onde fazer o movimento. O que você obtém então é a natureza da realidade moderna, de nossa dupla realidade. Acho que isso tem um fascínio inesgotável. E eu diria que isso é algo que talvez te interesse.
Madonna: Bem, não entro nisso.

Norman: Tudo bem...

Madonna: Não estou rejeitando o que eles fazem. Apenas o modo como isso me afeta. Ir a certos lugares e ver homens dançar, isso me excita, homens dançando nus.

Norman: Você consegue imaginar que, se tivesse uma vida diferente, poderia se tornar uma rainha do pornô?
Madonna: Isto é tão difícil de dizer. Não se trata de uma questão de inteligência. Não vou dizer que as estrelas de pornô são estúpidas, mas o que tenho na cabeça foi o que me trouxe até onde estou, até as investigações. Quero dizer, se eu fosse um pouco menor, talvez fosse uma dona de casa em Michigan.

Norman: Com um marido infeliz?
Madonna: As pessoas não param de me perguntar: ''Se sua mãe não tivesse morrido, já imaginou ...?'' E não posso pensar dessa forma, porque sou o que sou.

Norman: Você não consegue pensar ''que tal se'', mas pode usar ''e se...''. Embora haja certas coisas que uma rainha de pornô faça, mas você não fez em ''Body Of Evidence'', você foi tratada como se tivesse transgredido muito mais. E naturalmente você não precisava daquilo.
Madonna: Não. Eu queria fazer o filme.

Norman: É minha opinião. Algo lá no fundo de você, disse que valia a pena correr esses riscos.
Madonna: Nas cenas de sexo, senti que aquilo devia ser igual a interpretar um filme pornográfico. Como na cena em que, para todos os efeitos, estávamos fingindo totalmente; não houve penetração ou algo do gênero. Mas, se você está sentada na cara de alguém, não dá para fazer de conta. Não sei se estou respondendo à sua pergunta ...

Norman: Você está mais que respondendo. Penso que, na verdade, você está concordando comigo, que você passou pelas experiências de uma estrela pornô, e então voltemos ao que eu disse - você achou interessante sob vários aspectos e finalmente foi estimulante, pois você estava ingressando num mundo proibido, e você manobrava nele, vivia nele ...
Madonna: Correto.


Norman: E no entanto você depois não teve curiosidade pelas estrelas pornôs?
Madonna: Não.

Norman: Estou tentando entendê-la. Devo dizer que você é egocêntrica.
Madonna: Já fui acusada disto muitas vezes.

Norman: Um dos motivos pelos quais ''SEX'' chocou, foi uma foto de página inteira em que você ocultava o nariz entre duas nádegas. Você estava beijando o traseiro dele ou estava mordendo ali. É difícil dizer. Também havia um crucifixo ao fundo. No braço dele.
Madonna: Era a tatuagem do cara. Foi uma coincidência.

Norman: Mas a foto foi escolhida. Você tinha várias centenas de fotos no livro, e acho que li na publicidade, que havia 20 mil contatos fotográficos para colecionar.
Madonna: Oh!! Sim, sim...

Norman: De qualquer forma, a religião e a exceção não se distinguem tanto. Você come seu alimento, e todo o espírito que existe no alimento passa por uma grande mudança. Então o alimento é expelido. Ele chega às águas de novo - é como uma passagem para a morte. Você escolheu aquela foto porque notou uma ligação?
Madonna: Talvez inconsciente.

Norman: Ele choca muito as pessoas, e ao mesmo tempo você está dizendo que esta não é sua noção de paraíso intelectual?
Madonna: Sim, agradeço-lhe por notar. Mas acontece que ele tem um belo traseiro, e eu me deliciava com aquilo.

Norman: Não é para isso que todos nós trabalhamos?
Madonna: Exatamente. (risos). Mas eu realmente não respondi a pergunta. Creio que a religião e o erotismo se relacionam perfeitamente. E penso que minhas primeiras sensações de sexualidade e erotismo nasceram de minhas idas à igreja.

Norman: Tenho certeza de que você está com a razão. Não sou freqüentador de igreja, mas se fosse entrar para alguma religião convencional, seria católico.
Madonna: Ela é muito sensual e se refere a tudo que, para todos os efeitos, não podemos fazer. Tudo é proibido, e tudo por trás de material pesado - o confessionário, reposteiros escuros, vitrais, os rituais, o ato de ajoelhar - existe algo muito erótico naquilo. Afinal de contas, o catolicismo é muito sadomasoquista.

Norman: Também permite beber o sangue e comer a carne de Cristo.
Madonna: Sim, é carnívora.

Norman: Proibições incríveis se juntam para se obter o dom de dar a vida ... uma proeza intelectual e espiritual. Madonna: E se você é mau, entra numa pequena cabina e pede perdão a Deus ...

Norman: E funciona, até certo ponto.
Madonna: E você é perdoado.

Norman: Você pode sair e cometer o mesmo pecado de novo, mas a natureza do pecado mudou. E é isso tudo, o que uma igreja pode fazer por você. Sabe como é, quando você está criando filhos nunca pode controlá-los, apenas alterar o modo como eles vêem as coisas, um pouco de cada vez. O confessionário faz algo parecido, suponho, mas de um modo mais teatral e terrível.
Madonna: Sim, é muito operístico.

Norman: Você consegue se imaginar voltando a igreja?
Madonna: Vou à igreja um bocado, porque muitas igrejas católicas têm arquitetura muito bonita. Adoro, principalmente na época do Natal, o aroma, as velas, o incenso, o ritual, conforme disse, e acho que as igrejas são provavelmente, um dos locais tranqüilos aonde se pode ir. As pessoas de alguma forma, mostram respeito quando entram numa igreja, e você pode ir lá e ter uma verdadeira sensação de tranqüilidade. Mas não consigo pensar em me tornar de novo uma católica praticante. Gosto da idéia de que Deus está em todos nós, mas, para mim, o melhor tipo de oração, se Deus está em cada um de nós, é sermos amáveis uns para os outros, e isto é uma forma de oração.

Norman: Com toda certeza, você vai ser amável com certo tipo de gente: seria um grande erro. É preciso acreditar que existe mal no mundo.
Madonna: Acredito que o mal existe, mas do meu ponto de vista não creio que sou uma pessoa má.

Norman: Não, mas você tem um bocado de maldade em si. Como você pode não ser má?
Madonna: Não estou dizendo que não estou em conflito com bem e mal e que não luto com coisas de meu íntimo, mas estou dizendo que o modo como me relaciono com as pessoas é meu modo de rezar.

E Madonna também soltou mais de suas frases conhecidas nessa entrevista:

  • Quando estou no palco interpretando, ou até quando estive no programa de David Lettermann, me desligo de mim. Não tenho controle sobre essa outra pessoa. Embora eu saiba que ela esteja ligada à minha psique e à minha alma, não existe realmente nada que eu possa fazer;


  • Nunca achei que minha madrasta era minha mãe. Apenas uma mulher que me criou, uma figura feminina dominadora em minha vida. Passei a adolescência praticamente ignorando-a - como faz a maioria das crianças com pais de criação. Sempre me considerei uma criança totalmente órfã de mãe, e estou certa de que isso tem algo a ver com minha franqueza;


  • Eu não era propriamente a encrenqueira da família. Eu tinha uma irmã mais jovem que era de fato levada da breca, e meus dois irmãos mais velhos estavam sempre se metendo em brigas. Segui o outro caminho;


  • Eu tinha a obsessão de tirar sempre as notas mais altas. Tinha a obsessão de impressionar meu pai e manipular meu pai, mas de um jeito bem feminino;


  • Eu não cantava desde pequena. Não tinha nada que me desse a impressão de que ia ser cantora. Nada, em absoluto. Não tinha nenhuma impressão especial de que ia ser algo. Quando eu estava no curso secundário, queria ser dançarina profissional. Aquele era meu sonho: entrar para a companhia de Alvin Ailey. Acabei entrando na companhia secundária, não na companhia principal. Ganhei uma bolsa para estudar lá e a dança simplesmente me levou à música e ao canto, mas não cresci querendo ser cantora ou pensando assim de mim. Alguém me ensinou a tocar guitarra e comecei a compor música como se estivesse possessa. Compor canções. Foi a coisa mais estranha. Só fiquei sabendo que ia ser cantora quando tinha 22 anos;


  • Naturalmente tive tempo suficiente para pensar nas vantagens e desvantagens de ser famoso e um bocado de tempo para analisar as reações das pessoas em relação a mim. Como celebridade, ou pessoa incrivelmente famosa, deixam que neste país você funcione com a aprovação geral durante certo tempo. As pessoas levam uma segunda vida por intermédio de você e elas fantasiam ser você e querer fazer o que você faz. Mas isso nunca pode durar, porque é preciso acontecer várias coisas: você precisa desaparecer, perder o embalo, ficar sem idéias. Precisa se casar, ter um bocado de filhos, engordar ou algo do gênero. Precisa ter um problema com a bebida ou com drogas. Precisa entrar e sair de hospitais de reabilitação para que as pessoas possam ter pena. Ou precisa se matar, basicamente. A verdade é que nada disso me aconteceu, e as pessoas vão por aí, fazendo todos esses pronunciamentos. ''Oh, sua carreira terminou, ela está acabada agora, é um fracasso''. Parece que torcem demais para isto;


  • Você sente de fato quando está representando e existem centenas de milhares de pessoas num estádio, e estão todas ali por sua causa, a responsabilidade de atender tanta gente em duas horas é assustador e extenuante - não há como descrever, mas esta é a única palavra que me vem agora. Então, você sobe para seu quarto de hotel e não pode sair, porque é muito famoso para sair sem que o acompanhe 20 guarda-costas, então você senta no quarto enquanto todo mundo se diverte por ser anônimo, você senta lá e diz: Isto é foda. Tem alguma coisa errada neste negócio. Porque você sente a solidão mais inacreditável. Sim, todo mundo te adora com enorme carga emocional, mas então você está totalmente separada da humanidade. É a ironia mais esquisita, não acha? Em ''Truth Or Dare'', por exemplo, trabalhamos durante seis meses e saímos pelo mundo, vi o mundo e estive no quarto o tempo todo, enquanto todos os outros estavam lá fora, os dançarinos, os músicos, os guarda-costas, e me usando para se promoverem, sabe como é? ''Eu trabalho com a Madonna'', este tipo de coisa. E eu pensava que era um tanto injusto, sabe como é, porque todo mundo estava lá fora se divertindo, menos eu.


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